Memórias de um outro alguém – Parte I

As decisões andam difíceis e a caminhada, longa demais. Minhas pernas vêm bambeando com uma frequência tão grande que, por vezes, me pego sentada no chão, observando a vida passar por mim, sem força alguma para continuar a jornada . Meus braços estão fracos para tirar as pedras do caminho, e meus ombros se encontram cansados demais para carregar os suprimentos necessários ao meu bem-estar. Meus olhos estão encharcados, e meu coração acaba de conhecer a decepção mais brutal de todas. Minha alma chora e meu corpo pede arrego.

Quando foi que tudo ficou assim?


Entro no meu quarto, o único lugar no mundo onde nada mudou. Sinto-me segura, porém perdida, como nunca antes – Memórias. É isso que são. Apenas memórias – Insisto à mim mesma que tudo não passa de uma crise, mas a quem eu quero enganar? Estou sozinha mesmo. Volto a lembrar.

Minha mente é um universo aonde cultivo lembranças e recordações, como se fossem flores; mas, dessa vez, preciso arrancar algumas delas pela raiz. Memórias de um passado intenso e feliz voltam para (re)afirmar que meu presente não passa de um fracasso. Uma delas, vagando pelas lacunas ainda vazias, chama-me a atenção: as memórias de um outro alguém. Alguém que não sou eu. E, com certeza, alguém que não é você.

O passado nunca esteve tão presente.

Lembro-me de sua voz, a única que costumava me acalmar, e, ironicamente, lembro-me do momento exato em que a detestei por completo. Meu mundo fez-se em pedaços.

Não vale a pena dissertar sobre a razão que me fez conhecer o fundo do poço, mas a considero justa demais para culpá-la pelo aprendizado que ganhei.

O futuro nunca esteve tão presente. 

(e continua…)

 

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