Herói

Aos poucos, fui entregando aflições, segredos, sorrisos; fui criando memórias e construindo lembranças; fui colorindo as páginas da vida: ora com vermelho, ora com preto, ora com amarelo, ora com cinza; fui disponibilizando cada pedacinho meu, cada mísera parte que, ao se juntarem, formavam tudo o que fui, tudo o que sou e tudo o que ainda vou ser. Entreguei minha vida, meu coração. Me entreguei por inteira. E foi tudo de uma maneira tão ingênua e sincera que nem percebi. E vou te contar: nem doeu.

Simplesmente parecia certo. Era algo necessário a se fazer; como se nas mãos dele tudo realmente estivesse mais seguro. O transformei no guarda do meu coração, no protetor das minhas feridas e no único que tinha o dom de me fazer bem. Eu precisava de sua ajuda para para me manter sã e salva, simplesmente não havia mais sentido caminhar sozinha. Sua mão precisava estar junta a minha. Virei dependente de seu sorriso, de seu jeito, de sua afeição. Minha alma se cativou à dele de uma maneira inexplicável. Éramos dois em um. Não nos somávamos, nos completávamos (como em um quebra-cabeças). Simplesmente era assim. Não havia como fugir. E não fugi.

Contudo, assim como o mar, também temos nossos dias de revolta. Dias negros, nublados, gelados. As estações, lembra?* Como doem… Doem demais. O vento da insegurança e da dúvida sopra e perfura o peito, chega até a alma e congela todo e qualquer sentimento ali existente. Ele transforma tudo em . Tudo o que era posto como verdade, se torna ilusão. A alegria dos dias ensolarados se esvai e as feridas dos dias gélidos se abrem. “Tem dias em que eu sou nuvem, e preciso chover.”. E chovo. Chovo uma tempestade de sentimentos. Tempestade que varre, que destrói tudo o que vê pela frente. Tempestade essa que corrói tudo de bom que há dentro de mim. Inclusive ele. Porque ele era a bondade, ele era a materialização de um sonho. Sonho que virou pesadelo. E, então, me vi em um mundo de farsas, em um mundo que não achava que era possível de se estar.

Ele. Não, não pode ser.

Ninguém é de f(erro). Herói mesmo não é aquele que é invencível. É aquele que luta contra os males que o assombram; é aquele que cai, mas aquele que também se levanta; é aquele que admite o erro e que faz de tudo pra repará-lo; é aquele que sabe amar e reconhece o verdadeiro valor do amor; é aquele que valoriza, que corre atrás e que pede desculpas; é aquele que faz de tudo para não perder; é aquele que ignora o orgulho, finge não ouvir o barulho e vence o medo; é aquele que se preocupa e demonstra preocupação; é aquele que não quer ferir, mas que, quando fere, faz de tudo para curar.

E, depois de todos os verões, outonos, invernos e primaveras que passamos juntos; depois de todos os momentos que tivemos; depois de todas as revoltas e de todas as feridas, eu espero que você ainda se mostre meu herói. Eu espero que você ao menos mude algo, que não permaneça parado e que faça acontecer. Eu espero que você tenha consciência do tamanho do meu amor, mas que saiba também que ele não está aqui para me fazer sofrer. Eu cansei de ouvir promessas que nunca serão cumpridas. Meu amor foi feito pra ser sentido, não pra ser ferido.E eu te amo; e por te amar, ainda lhe dou uma chance. A única que restou.

Agarre ela;

Segure minha mão;

E seja mais

Muito mais.

 

(Escrito em 22/07/2015)

 

 

 

*citação presente em outro texto

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Flocos

E a história se repete. Os cacos (que antes tinham se amontoado em um remendo qualquer) se quebraram mais uma vez. As lágrimas rolaram pelas minhas bochechas, meus batimentos aceleraram e, no final das contas, tudo o que pude sentir foi o calor que meu corpo exalou. Calor de medo, calor de mágoa, calor de culpa. Medo por desconhecer o futuro; mágoa pela intensidade da dor; e culpa por ter deixado tudo chegar até aqui. O coração desconhece as razões da sanidade, não é mesmo? É tudo intenso demais, vivo demais. E, talvez, por ter vivido tanto, eu tenha acabado morrendo. Morrendo por dentro. Pois morri quando senti meus olhos fundos, meu coração pesado e minha alma perdida. Morri quando meus olhos enxergaram claramente a verdade e meu coração sofreu de uma vez só todo o acúmulo que eu vinha mantendo dentro de mim há tanto tempo. Fotos, memórias, acontecimentos. Sorrisos, abraços, beijos. Se amor não se esquece… imagina a dor. Dor que vem em forma de avalanche. Avalanche que desgasta, que comprimi e que destrói. Avalanche que não tem hora pra chegar e, muito menos, para ir embora. Avalanche que corrompe as veias da vida e impede qualquer felicidade de fluir por dentro de nós. Avalanche desgraçada, eu diria.

Com o tempo, felizmente (ou não), e por força do destino, ela, avalanche, vai se deteriorando. Aos poucos, pequenos flocos de neve vão se formando e aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos se tornam parte de uma lembrança que nós, infelizmente, não gostaríamos de carregar conosco. Flocos que, mesmo pequenos, se tornam um peso. Flocos que esmagam, furam e arranham. Flocos que sufocam, incomodam e violam. Flocos que pressionam todo e qualquer amor que ainda exista aqui e aí. Flocos que retiram a paz, o sorriso no rosto durante o dia e a consciência limpa ao se deitar no travesseiro à noite. Flocos que tiram o sono e abrem espaço para um milhão de incertezas e dúvidas. Flocos que, aos poucos, apagam o seu brilho, o meu brilho, o nosso brilho. Apagam o brilho da estrelinha que sempre existiu aí dentro do seu coração (e dentro do meu também). Estrelinha que iluminou boa parte da escuridão que se fez presente em você, em mim, em nós. Mas a pilha não dura para sempre, não é mesmo? Uma hora a luz apaga e o que resta não são os que os olhos veem, mas o que o coração sente. E, pra variar, depois de tanta tempestade, só resta chuva. Flocos malditos, eu diria. E mais maldito ainda quem os colocou aqui (e aí). Mas a vida é injusta, não é, meu caro? Injusta por transformar em seco, o fluido; em sujo, o limpo; e em vilão, o herói. Por que, quem sabe, não tenha sido eu a culpada, não é? Pois, com toda a certeza, fui acusada pelo tribunal que eu mesma criei; pela vida que eu mesma escolhi viver e (por mais que me doa dizer), quem sabe, pelo amor que eu mesma inventei. E, então, que a sentença seja dada e que eu cumpra a pena: que mais flocos caiam sobre mim.

Se proteja dos resquícios, o tempo está ficando feio.

 

(Escrito em 19/11/2015)