Os nós do meu cabelo

É verão no Rio de Janeiro. Calor, suor e irritação. Tem gente que diz que preferência climática revela caráter. Eu devo ser estúpida e desalmada. Ou sensata e perspicaz. Sei lá, acho que depende do ponto de vista. Só sei que é início de fevereiro e eu estou morrendo de calor dentro do meu quarto. Aquele calor que te faz passar mal e te obriga a ficar de short curto e sutiã, estirada na cama sem saber o que fazer – pensando em como deveria ser bom estar encasacada no meio da neve na Groenlândia, ouvindo música ambiente e tomando um chocolate quente. Meu pai me ensinou a sempre buscar qualidade de vida, mas, que a verdade seja dita, aqui nesse forno dos infernos é impossível (a menos que você permaneça o dia inteiro afogado dentro de uma piscina ou estoure a conta de luz da sua casa por causa do ar condicionado). Daí é óbvio, eu pensei comigo mesma: eu preciso prender o meu cabelo ou a minha morte será anunciada em breve. Aleatório? Talvez. Satisfatório? Sem dúvida. E eu prendi. Ou pelo menos tentei prender.

Na primeira enfiada de dedos no meu cabelo, a minha mão prendeu lá dentro. Tentei de novo. Travou. De novo. Não, não foi dessa vez. Puxei. Não funcionou. Puxei com mais força. Também não. Tirei minhas mãos. Respirei fundo. É realmente muito fácil ficar irritada nesse período do ano. De novo. Só mais uma tentativa… Tá, já entendi. Não dá. Desisti. Peguei a mecha de cabelo problemática e olhei pra ela. Estava encarando-a pra ver o tamanho do esforço que eu teria que fazer só pra desemaranhar tudo, quando, de repente, senti quase que uma vertigem. Meu corpo travou. Minha mente acelerou. Ficou tudo preto e, ao mesmo tempo, ficou tudo claro demais. Foi o sentimento de uma das maiores epifanias da minha vida – tipo Clarice e sua barata. Agora, tipo Ana Clara e seu nó (no cabelo).

É sério.

Mais cedo, quando entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, longe de todos os olhares e de todos os julgamentos, me senti mais vulnerável do que nunca. Fraqueza, confusão e medo – eu poderia ser definida, nesses últimos meses, por essas três palavras. Nunca foi tão fácil me ler, mas nunca foi tão difícil realmente me entender. Talvez seja o calor, ou talvez seja a minha incapacidade de fazer boas escolhas. Seja o que for, o nó no meu cabelo já estava lá.  A dor, a tensão, a insônia, as lágrimas – todas essas coisas são minhas e também já estavam lá.

É complicado. Criei uma jaula em volta de mim, alimentada pela opinião e pela validação dos outros. Outros esses que nem sequer estão aqui para secar uma lágrima minha ou para me abraçar forte durante um momento de crise. Eu sei, não se pode basear uma vida pelo olhar de terceiros, mas é difícil raciocinar enquanto tudo à sua volta cai aos pedaços. Tento parecer forte e feliz, mas acredito que a conta de tanto fingimento chegou – e, diga-se de passagem, está bem cara.

Ao longo do tempo, eu fui andando em círculos e repetindo padrões que foram responsáveis por todo esse confronto emocional de agora. E foi assim, por meio de impulsividades, de medos, de decepções e de insuficiências que eu criei o meu nó. Um nó angustiado, triste e fraco. Um nó que representa a minha falta de força perante os meus sonhos, a minha felicidade e a minha vida. Um nó que aumenta e se fortalece a cada dia e que me tira a paz – de onde quer que eu esteja. Tem gente que diria que é apenas um emaranhado bobo, uma dor que chega e passa. Eu digo que é a junção de tudo o que há de pior dentro de você e de tudo o que você mais preza – em um combo só – é a materialização dos seus maiores pesadelos – em um único sonho.

É um nó.

De acordo com o dicionário, um nó é caracterizado pelo entrelaçamento de extremidades, que terminam por se apertar. E tanto aperto gera sufoco. É lógico, você sabe o que vai te fazer feliz, mas você não tem coragem de largar tudo para agarrar essa oportunidade. Tem muita coisa em jogo. Você sabe que o que você está sentindo é errado e não te faz bem, mas quem disse que você consegue ser diferente? Você está preso. Você não sabe mais se mover. Você só se debate em meio ao seu próprio lixo, revirando as merdas e os vacilos que você já cometeu durante toda a sua vida. Você praticamente vira um entulho. Descartável, inútil. Desprezível. E isso tudo logo vira chorume e você – coitado – apodrece em pouco tempo – sem nem ter tempo de ouvir uma voz amiga ou de sentir o carinho de uma pessoa amada. Você está sozinho. Você sempre esteve. Você só não queria acreditar em tudo isso. É o seu fim. É o meu fim. É o nosso fim.

Agora, eu acredito. E posso – finalmente – me libertar. É a minha vez de voar. Alto e livre. Sem olhar para trás.

Em um ímpeto de coragem, deixo de ser.

Enfim, o fim.

Antes, nó. Agora, pó.

Já consigo sentir o cheiro de toda essa podridão diminuindo. A fumaça sobe e, junto à ela, minha alma cansada e fria se esvai pelo ar. Meu corpo não passa de uma simples memória material e eu me misturo – feliz – com as nuvens, com o oxigênio e com a fragrância do meu antigo perfume. Não sou mais. E, ao mesmo tempo, sou tudo. E isso é leve. É mágico. É novo.

Logo, me dissipo completamente em meio ao céu – e sei que, ali, sou o melhor que poderia ser.

O melhor

Que poderia

Ser.

 

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