Flocos

E a história se repete. Os cacos (que antes tinham se amontoado em um remendo qualquer) se quebraram mais uma vez. As lágrimas rolaram pelas minhas bochechas, meus batimentos aceleraram e, no final das contas, tudo o que pude sentir foi o calor que meu corpo exalou. Calor de medo, calor de mágoa, calor de culpa. Medo por desconhecer o futuro; mágoa pela intensidade da dor; e culpa por ter deixado tudo chegar até aqui. O coração desconhece as razões da sanidade, não é mesmo? É tudo intenso demais, vivo demais. E, talvez, por ter vivido tanto, eu tenha acabado morrendo. Morrendo por dentro. Pois morri quando senti meus olhos fundos, meu coração pesado e minha alma perdida. Morri quando meus olhos enxergaram claramente a verdade e meu coração sofreu de uma vez só todo o acúmulo que eu vinha mantendo dentro de mim há tanto tempo. Fotos, memórias, acontecimentos. Sorrisos, abraços, beijos. Se amor não se esquece… imagina a dor. Dor que vem em forma de avalanche. Avalanche que desgasta, que comprimi e que destrói. Avalanche que não tem hora pra chegar e, muito menos, para ir embora. Avalanche que corrompe as veias da vida e impede qualquer felicidade de fluir por dentro de nós. Avalanche desgraçada, eu diria.

Com o tempo, felizmente (ou não), e por força do destino, ela, avalanche, vai se deteriorando. Aos poucos, pequenos flocos de neve vão se formando e aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos se tornam parte de uma lembrança que nós, infelizmente, não gostaríamos de carregar conosco. Flocos que, mesmo pequenos, se tornam um peso. Flocos que esmagam, furam e arranham. Flocos que sufocam, incomodam e violam. Flocos que pressionam todo e qualquer amor que ainda exista aqui e aí. Flocos que retiram a paz, o sorriso no rosto durante o dia e a consciência limpa ao se deitar no travesseiro à noite. Flocos que tiram o sono e abrem espaço para um milhão de incertezas e dúvidas. Flocos que, aos poucos, apagam o seu brilho, o meu brilho, o nosso brilho. Apagam o brilho da estrelinha que sempre existiu aí dentro do seu coração (e dentro do meu também). Estrelinha que iluminou boa parte da escuridão que se fez presente em você, em mim, em nós. Mas a pilha não dura para sempre, não é mesmo? Uma hora a luz apaga e o que resta não são os que os olhos veem, mas o que o coração sente. E, pra variar, depois de tanta tempestade, só resta chuva. Flocos malditos, eu diria. E mais maldito ainda quem os colocou aqui (e aí). Mas a vida é injusta, não é, meu caro? Injusta por transformar em seco, o fluido; em sujo, o limpo; e em vilão, o herói. Por que, quem sabe, não tenha sido eu a culpada, não é? Pois, com toda a certeza, fui acusada pelo tribunal que eu mesma criei; pela vida que eu mesma escolhi viver e (por mais que me doa dizer), quem sabe, pelo amor que eu mesma inventei. E, então, que a sentença seja dada e que eu cumpra a pena: que mais flocos caiam sobre mim.

Se proteja dos resquícios, o tempo está ficando feio.

 

(Escrito em 19/11/2015)

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